Brasil: um Romance quase Pós-Moderno Por Felipe Diógenes

Brasil: um Romance quase Pós-Moderno Por Felipe Diógenes

Escrever um artigo sobre a situação política do Brasil é algo um tanto peculiar, pois desde cedo o menino pobre é ensinado a pensar em futebol como uma das únicas formas de ascensão social. Mais interessante ainda é escrever sobre isso quando a identidade futebolística parece ter sido desconstruída. Então fica a interessante pergunta: O que é o Brasil? E o senhor leitor vai se perguntar também: “eu esperava ler algo sobre a política do país, por qual razão estou lendo sobre futebol?”.

Por clichê ou por simples incompetência política não consigo começar de outra forma. Em Nova York toda vez que falo que sou brasileiro me torno automaticamente um jogador de futebol ou sambista profissional. Penso que todos esses elogios são elogios políticos. De acordo com o dramaturgo Bertolt Brecht “o pior analfabeto é o analfabeto político” porque “ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas”. Justificada em Brecht, portanto, a minha ordinária decisão ao falar da situação do futebol, digo da situação política do Brasil.

O Brasil se viu nú em 2014 quando perdeu para a Alemanha na copa do mundo de futebol dentro do próprio país. O que será que aconteceu com os pobres fracos guerreiros, os jogadores? Creio que hoje os jogadores pobres precisem mais do que somente ginga nos pés para que consigam jogar na seleção brasileira, sendo uma das causas disso, a corrupção por trás desse campo verde. Cartolas colocam apenas os jogadores que querem dentro do time que desejam. Enfim, uma seleção quase tão mal educada como a brasileira não poderia mesmo conseguir vencer uma organizada seleção alemã. Mal educada mesmo porque deixa o pobre de fora, tanto do time quanto da rquibancada. Prezados amigos de NY eu não fui assistir a nenhum jogo sequer na copa do mundo, pois eu me formei na área de educação, ou seja, o salário é apenas razoável, e, além disso, não recebo em dólar.

E assim é para a maioria dos brasileiros. São deixados de fora da própria casa, uma arca sem Noé, uma navio sem ancora, um país sem mapa, um romance quase pós-moderno. Claro que pobre e brasileiro não cabe em romance pós-moderno, até porque nem sei o que significa “pós-modernismo”, você sabe? Talvez seja um país onde a maioria é pobre e a educação falha pelo problema da desigualdade social, pelo autoritarismo da polícia e pela quase justa meritocracia. É justa sim, mas só de acordo com a mídia de massa, porque é uma ideia muito bem vendida pela mídia e por alguns políticos. Aécio Neves, por exemplo, candidato a presidência derrotado na ultima eleição, acredita que a meritocracia é justa para com todas as pessoas porque dá a oportunidade de cada um mostrar o seu talento e ascender socialmente.

A lei de cotas criadas para universidades, baseada na obrigação das instituições federais de reservar vagas para negros e indígenas, vindos da escola pública, parece incomodar a pequena população que forma a classe alta e também média brasileira. Eles parecem estar desconfortáveis em compartilhar a mesma faculdade ou voo para um país estrangeiro. Os mais sábios professores dizem que a questão “raça” não importa. Desta forma muitos entendem que preconceito não existe no país e em lugar algum, outros entendem que existe a raça humana, o que é muito bonito. Entretanto, a maioria não entende nada porque não sabe ler ou sabe ler sem contexto. Geralmente esses quase filósofos ascenderam socialmente e falam através de uma lente chamada alto salário publico pago pelo governo federal. Nada ruim o salário, pois paga uma viagem ao primeiro mundo pra sentir o gosto de como é uma torcida organizada que não grita e que não canta.

Sobre a energia da torcida prefiro a da brasileira, digo da torcida que curte uma pelada no campo do Seu João, porque é de graça. Em relação à torcida que assiste aos jogos da seleção eu não gosto. Não gosto porque não sabem fazer política direito, isto é: torcer calado. Ficam xingando a presidente eleita, Dilma Rousseff. Fazer política direito significa assistir ao jogo calado assim como devemos todos assistir aos políticos fazerem o que querem: calados. Afinal o voto já foi dado e comprar feijão, tickets pra copa do mundo (e que venham as minhas não Olimpíadas) e lanchar no McDonalds dá no mesmo.

Não venham dizer que o Brasil tá uma merda que nunca foi antes. Eu estudei na Universidade Federal de Minas Gerais e há vários relatos de professores que viveram a época do presidente Fernando Henrique Cardoso, de 1995 a 2003. Eles relataram uma má situação no ambiente da universidade, falta de dinheiro e papel higiênico. Atualmente existe uma falta de verba que ninguém quer explicar a origem. Insistem em dizer que a culpa é do partido atual, eu sugiro que o buraco é sempre mais embaixo. A verdade é que não temos de achar um culpado pra um futebol que não tem graça há muito tempo.

Enquanto isso a elite continua do seu camarote batendo as suas lindas e novas panelas, chamando a atenção dos veículos de comunicação para tentar tirar Dilma do trono dela. O panelaço1 é como um coro, simbolizando a forma como eles se sentem instáveis em seu status-quo. Atualmente as pessoas pobres têm maiores oportunidades de ir para a universidade por causa de programas político-sociais que vem sendo mantidos pelo governo. Não é mais que um direito de cada cidadão. Cidadania significa ter lugar para todos seja no transporte público ou na Copa do Mundo que ocorreu dentro a minha casa onde eu não pude assistir na televisão porque o salário de um professor mal paga a conta de luz.

Não gostaria de terminar sem explicar o titulo. Para Umberto Ecco “o pós-moderno se volta para o moderno para reconhecer que o passado, desde que não pode ser realmente destruído, porque sua destruição leva ao silêncio, deve ser revisitado; mas com ironia, não inocentemente.” Quando as pessoas batem as suas panelas de seus camarotes ou apartamentos, isto demonstra que eles têm medo de perder seu status social. Isso fortemente simboliza a destruição causada pelo silencio de uma população que não visita a casa onde nasceram, inconscientes de seu passado. A inconsciência é a doença que não deixa um jogador como Garrincha2 nascer novamente ou o leito jogar com a ironia que é como a brilhante bola que este antigo jogador costumava jogar. Em resumo, descobri que o transporte público no Brasil aumentou novamente, levando pessoas a rua para protestar. Como você sabe tudo é relacionado à política e infelizmente os serviços públicos são muito caros assim como o futebol, ou soccer, como queira.

1 Panelaço: protesto da classe media e alto brasileira que não aprova o governo atual. O bater de

panelas é comumente chamado “panelaço”.

2 Garrincha: Manuel Francisco dos Santos foi um jogador de futebol brasilero muito conhecido pelo seu

jeito de drilblar.

Referências

Topic Exploration Pack: Practioners: Brecht. Cambridge 2015 p. 11

(GEYH, Paula et al. (ed.), 1998. p. 622)